Criolo se movimenta com grandeza entre o luto e a luta que regem o engajado álbum ‘Sobre viver’

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Com as vozes de Milton Nascimento e Liniker, o disco tem potência e sedimenta a parceria do rapper com o duo Tropkillaz em temas sombrios como ‘Diário do Kaos’ e ‘Sétimo templário’. Capa do álbum ‘Sobre viver’, de Criolo
Helder Fruteira
Resenha de álbum
Título: Sobre viver
Artista: Criolo
Edição: Oloko Records
Cotação: * * * * 1/2
♪ Criolo acredita na força do rap vencendo o canhão. Álbum lançado pelo cantor e compositor paulistano de 46 anos nesta quinta-feira, 5 de maio, Sobre viver versa em essência sobre amor e esperança para expiar tanta dor, injustiça, desilusão e revolta provocadas pelo racismo cotidiano e pelas injustiças e dissonâncias sociais expostas pelo artista nas dez faixas do disco.
Ainda que atravessado por uma pandemia que ceifou a vida de quase 700 mil brasileiros – entre eles, Cleane Gomes, irmã de Kleber Cavalcante Gomes – e por um desgoverno que teima em tirar o país do trilho, o tema central do disco Sobre viver se afina com o assunto que pautou o último álbum de rap do artista, Convoque seu Buda (2014), apresentado há já longos oito anos.
A chapa ainda fervilha e os bares estão cheios de almas vazias, mas repletas de ódios. Criolo não foge à luta e, sem dar nomes aos bois, expõe extremismos, o beijo da morte e a política de genocídio negro com o peso de Sétimo templário, uma das músicas na qual figura o duo Tropkillaz, nome central na arquitetura deste primeiro álbum de músicas inéditas do artista desde Espiral de ilusão (2017), disco em que o rapper se converteu ao samba com nobreza.
O encontro de Criolo com Tropkillaz – duo paulistano de música eletrônica formado pelos DJs e produtores Laudz e Zegon – pauta a sonoridade do álbum Sobre viver. O rapper virou o disco e passou a abarcar o trap a partir do incendiário single Sistema obtuso (2020), marco inicial da parceria do artista com o Tropkillaz.
Produtores dos discos anteriores do rapper, Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral permanecem no time, mas já sem protagonismo. Ambos são coprodutores de Ogum ogum, faixa iniciada com citação de texto bíblico e gravada por Criolo com a adesão de Mayra Andrade, cantora nascida em Cuba e criada em Cabo Verde. Na faixa, Mayra professa com o rapper a fé na tolerância religiosa e no orixá da religião afro-brasileira – tecla na qual Criolo rebate em Yemanjá chegou.
Ganjamam reaparece na coprodução de Aprendendo a sobreviver. Contudo, coube a Laudz e a Zegon orquestrarem a sinfonia sombria que rege Criolo na escrita do diário do caos brasileiro, assunto recorrente do álbum Sobre viver.
A propósito, Diário do Kaos é a impactante faixa que abre o disco e que iria originalmente dar título ao álbum. Com o fervor do soul, Criolo solta grito visceral e expõe a crença no rap como um sobrevivente do caos.
Na sequência, Pretos ganhando dinheiro incomoda demais mantém o tom abrasivo do som – construído na faixa com bateria e synths evocativos de timbres dos anos 1980 – e do discurso ao disparar artilharia contra o racismo visível nos olhos das elites diante das conquistas materiais do povo preto.
Seguindo na mesma linha, Moleques são meninos, crianças são também se banha na praia do reggae, mas sem o clima habitualmente solar do gênero, pois o tema alerta para o abandono de que crianças são vítimas no sistema brasileiro que oprime pretos e pobres.
Criolo versa sobre a morte da irmã, Cleane, no rap ‘Pequenina’
Helder Fruteira / Divulgação
Destaque da safra autoral do artista, Me corte na boca do céu, a morte não tem perdão é o flerte com a MPB em música mais melódica pautada pelo discurso seco. A letra mostra Criolo seguindo o bloco do eu sozinho em Carnaval fúnebre, na contramão da alegria soprada pelos metais que ecoam o som de outros (Her)manos.
Mas Criolo não vai sozinho para a folia. É seguido por Milton Nascimento, voz-guia da MPB que, mesmo com a potência diluída pelo tempo, valoriza o discurso de Criolo por estar amplificada na faixa pela força mítica que envolve esse divino cantor de alma mineira. O toque solitário de um tambor é ouvido na gravação de arranjo imponente.
Faixa produzida somente por Criolo pelo caráter biográfico e pessoal, mas arranjada por Jaques Morelenbaum, o rap Pequenina é réquiem para a irmã Cleane Gomes que costura a voz resistente de Maria Vilani – mãe de Cleane e de Criolo – com a revolta da rima de MC Hariel e com o canto cheio de soul de Liniker no refrão.
Indo em frente, na vida e no disco, Criolo deixa baixar o caboclo em Quem planta amor aqui vai morrer – tema afro-brasileiro dedicado pelo rapper a heroicos ativistas nacionais como o seringueiro Chico Mendes (1944 – 1988) e a vereadora Marielle Franco (1979 – 2018) – para deixar o sopro final de esperança em Aprendendo a sobreviver.
Álbum potente, Sobre viver sedimenta a “volta” de Criolo ao rap – retorno a rigor iniciado há quatro anos com o single Boca de lobo (2018), lançado um ano após o majestoso álbum de samba – com certa (necessária) repetição de temas, mas não de sons.
Entre o luto e a luta por um Brasil melhor, Criolo continua grande e em movimento.

Fonte: G1 Entretenimento