Lazzo Matumbi vive noite de rei ativista ao cantar compositores da Bahia na gravação do primeiro álbum audiovisual

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Lazzo Matumbi celebra 45 anos de carreira solo com a gravação do primeiro álbum audiovisual, ‘Matumbi canta a Bahia’
Matheus Leite / Divulgação
♫ CRÍTICA DE SHOW
Título: Matumbi canta a Bahia
Artista: Lazzo Matumbi
Data e local: 24 de julho de 2026 na Conha Acústica do Teatro Castro Alves (Salvador, Bahia)
Cotação: ★ ★ ★ ★ ★
♬ SALVADOR (BA) – “Você é o rei”, saudou Rachel Reis ao cantar “Bahia comigo” (Paulo Diniz e Odibar, 1972) com Lazzo Matumbi diante do público que lotou a Conha Acústica do reaberto Teatro Castro Alves na noite de sábado, 25 de julho, para assistir, embevecido, à gravação do primeiro álbum audiovisual do cantor e compositor soteropolitano em 45 anos de carreira fonográfica, “Matumbi canta a Bahia”.
Sim, Lázaro Jerônimo Ferreira estava em casa – a cidade de São Salvador da Bahia de todos os santos, onde nasceu há 69 anos, precisamente em 24 de março de 1957 – e viveu noite de rei na estreia de um grande e belo show orquestrado sob direção artística de Manno Góes (também autor do roteiro) e direção musical do maestro Ubiratan Marques, mais uma vez hábil na combinação harmoniosa de sopros e percussões. Bailarinos, luzes inebriantes e projeções envolveram o artista em aura majestosa em show que sintetizou o suprassumo da obra e a trajetória artista de Matumbi.
Vocalista do grupo afro Ilê Aiyê de 1978 a 1980, período em que ficou conhecido como Lazinho do Ilê e como Lazinho Diamante Negro, o cantor virou Lazzo Matumbi em 1981, ano em que iniciou carreira solo com a edição de single com as músicas “Salve a Jamaica (Homenagem a Bob Marley)” e “Guarajuba”, ambas de autoria do próprio Lazzo. Desde então, Lazzo Matumbi se tornou uma voz ativista da Bahia, importante na popularização do samba-reggae e do reggae.
O ativismo desse rei negro pautou o show “Matumbi canta a Bahia” e gerou momentos emocionantes em que pareceu haver somente um sentimento na plateia e na voz. Foi arrepiante quando Lazzo abriu a voz e sentenciou que “A minha pele de ébano é / A minha alma nua”, cantando os primeiros versos do reggae “Alegria da cidade” (1988), parceria do artista com Jorge Portugal (1956 – 2020). Mais tarde, o canto inicialmente a capella de “14 de maio” (2021), outro reggae de Matumbi com Jorge Portugal, eletrizou a Concha Acústica por evidenciar a letra que narra a situação do povo negro em um mundo que se conservava hostil um dia após a abolição da escravatura.
“O mundo me olhava, mas ninguém queria me ver / No dia 14 de maio, ninguém me deu bola / Eu tive que ser bom de bola pra sobreviver / Nenhuma lição, não havia lugar na escola / Pensaram que poderiam me fazer perder / Mas minha alma resiste, o meu corpo é de luta”, enfatizou Lazzo ao dar voz aos versos de “14 de maio”, música depois repetida na cadência do reggae.
Lazzo Matumbi canta ‘Bahia comigo’ (Paulo Diniz e Odibar, 1972) com Rachel Reis na gravação do álbum audiovisual ‘Matumbi canta a Bahia’
Matheus Leite / Divulgação
Transformando a Concha no palco da celebração das vitórias dessa luta contínua, Lazzo Matumbi extrapolou o próprio repertório para cantar músicas de outros compositores da Bahia. De Caetano Veloso, icone da MPB projetada nos anos 1960, Lazzo surpreendeu ao cantar “Sim / Não”, música do álbum “Outras palavras”, lançado por Caetano há 45 anos, no mesmo ano de 1981 em que Lazzo iniciou a carreira solo.
Um número antes, Lazzo puxou o fio da história para reviver um dos grandes sambas da obra de outro compositor nascido (como Caetano) na cidade de Santo Amaro da Purificação (BA), Assis Valente (1911 – 1958), de quem o cantor deu o vozeirão grave ao samba “Brasil pandeiro”, lançado em 1941 pelo conjunto vocal Anjos do Inferno, mas geralmente mais ouvido na gravação feita pelo grupo Novos Baianos no histórico álbum “Acabou chorare” (1972) por indicação de outro baiano ilustre, João Gilberto (1931 – 2019).
Aberto com a música “Minha paz” (Lazzo Matumbi, Beto Marques e Carlos Escorpião, 2020), o roteiro caiu naturalmente nas águas do samba de Dorival Caymmi (1914 – 2008), compositor que desbravou os mares musicais da Bahia. De Caymmi, Lazzo Matumbi cantou “São Salvador” (1960) com a intervenção de BNegão, rapper que vem mergulhando na obra do compositor baiano.
A lembrança do samba de Caymmi se afinou com a história de Lazzo Matumbi, filho único de Minervina Paixão Ferreira, criado ao som dos atabaques das rodas de samba da Federação, bairro da região central de Salvador (BA), cidade celeiro do samba e capital do samba-reggae, gênero de “Negrume da noite” (Paulinho do Reco e Cuiuba, 1989), pérola negra que saúda a realeza do Ilê Aiyê, bloco afro que foi o veículo para a propagação da voz resiliente de Lazzo Matumbi.
Sucedida pela lembrança de “Luandê” (1983), parceria de Ederaldo Gentil (1914 – 2012) e José Carlos Capinan regravada por Lazzo no álbum “Filho da terra” (1985), “Negrume da noite” foi outro ponto luminoso do show “Matumbi canta a Bahia” ao lado do ijexá “É d’Oxum” (Gerônimo Santana e Vevé Calazans, 1985), cantado por Lazzo Matumbi em tons serenos, com ênfase na sedutora melodia da música lançada pelo grupo MPB4 na trilha da minissérie “Tenda dos milagres” (1985).
No roteiro construído pelo diretor artístico Manno Goés, a música “É d’Oxum” foi alocada ao lado de “Cordeiro de Nanã” (Mateus Aleluia e Dadinho, 1977), sucesso do grupo Tincoãs cantado pelas vocalistas da big banda e pelo coro do público.
Louvar os orixás, a beleza do Ilê Aiyê, a aura sagrada dos Tincoãs e a resistência do povo negro foi um ato político exercido por Lazzo Matumbi com nobreza ao longo da gravação audiovisual do show “Matumbi canta a Bahia”.
Nome em ascensão no universo do hip hip baiano, o rapper Ravi Lobo enfatizou o ativismo do show ao dividir com Lazzo o canto de “Herança do quilombo”, música de Ravi, gravada pelo artista em feat com Matumbi no álbum “Shakespeare do gueto II” (2025).
Lazzo Matumbi recebe o rapper BNegão para cantar samba de Dorival Caymmi (1914 – 2008) no show gravado ao vivo no sábado, 25 de julho
Matheus Leite / Divulgação
O canto de “Cheiro de amor” (Jota Moraes, Duda Mendonça, Paulo Sergio Vale e Ribeiro, 1979) – sucesso de Maria Bethânia – foi o ponto romântico de roteiro pautado pelo engajamento, potencializado com a entrada em cena da BaianaSystem. Diante de Lazzo, a banda pôs “Navio” (Russo Passapusso, 2019) na proa antes de efetivamente se unir ao anfitrião em “Praia do futuro” (Antonio Carlos, Jocafi e Russo Passapusso, 2025) e “Do jeito que seu nego gosta” (Lazzo Matumbi e Joselito de Miranda, 1983), música do primeiro álbum de Lazzo, “Viver, sentir e amar” (1983).
No fim, com as vozes do coro Multivox, Lazzo arrematou o show “Matumbi canta a Bahia” com o canto coletivo do “Me abraça e me beija” (1988), reggae que compôs com o parceiro Gileno Félix (1952 – 2026), falecido aos 73 anos na última segunda-feira, 20 de julho. O clima de congraçamento no canto desse reggae amplificado nacionalmente na voz de Margareth Menezes reforçou o tom majestoso do show apresentado em noite em que Lazzo Matumbi foi rei.
♪ O colunista e crítico musical do g1 viajou a Salvador (BA) a convite da produção do show “Matumbi canta a Bahia”.
Lazzo Matumbi apresenta e grava o show ‘Matumbi canta a Bahia’ na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador (BA)
Matheus Leite / Divulgação

Fonte: G1 Entretenimento