Railane Ribeiro, da Associação de Artesãs, diz que a falta de informação deixa famílias inseguras. Presidente da Associação Industrial quer pedido de desculpas de secretário por fala em que comparou manifestantes ao Talibã. Railane Ribeiro da Silva é quilombola da comunidade Mumbuca, na região do Jalapão
Letícia Queiroz/G1
Representantes da comunidade que vive no Jalapão não saíram satisfeitos da audiência pública realizada na Assembleia Legislativa do Tocantins nesta quinta-feira (20) para tratar sobre o projeto de concessão de parques estaduais. A proposta, que inclui o Jalapão e outras três unidades de conservação, pode ser votada na próxima semana, mas para quem mora no local ainda não está claro o que exatamente está sendo proposto. A sessão teve clima tenso e até um bate-boca.
“Depois da audiência de ontem ficou um impasse. Já tínhamos dúvidas e continuamos com mais dúvidas de que isso funcione ou não. Nós estamos até agora sem entender o que é realmente essa concessão. Como vai ser? Que impacto vai ter?”, disse Railane Ribeiro da Silva, quilombola da comunidade Mumbuca e presidente da Associação dos Artesãos.
A jovem disse que as famílias tradicionais, que vivem na região, não foram ouvidas. “Temos medo de que eles possam simplesmente votar na terça-feira a favor dessa concessão. Será que isso vai beneficiar a comunidade? Será que realmente vai mudar a economia? Será que a natureza está preparada para isso? Vai impactar uma cultura, um povo. Nem foram consultar as comunidades e perguntar o que a gente acha”, disse.
Sessão sobre a concessão do Jalapão na Assembleia Legislativa teve bate-boca
Reprodução/TV Anhanguera
O projeto apresentado pelo Governo do Tocantins na AL tem apenas duas páginas e não detalha o funcionamento da concessão. Não há ainda informações de quais atrativos vão ficar sob responsabilidade da concessionária, quanto tempo o contrato vai durar e quais serão os investimentos a serem feitos, por exemplo.
Ao defender a ideia, o secretário de parcerias e investimentos, Claudinei Quaresmin, disse que estudos ainda estão sendo feitos pelo BNDES. Ele afirma que o projeto pode gerar investimentos e empregos na região. O G1 procurou o governo para comentar a reclamação dos moradores sobre a falta de clareza, mas ainda não teve retorno.
Railane diz que membros da comunidade Mumbuca e de outras comunidades têm medo se serem prejudicadas. “Quando o turista vai lá, ele respeita nossa história. Se nesse lugar, vamos supor, que tenha um resort. Não precisam ir na comunidade mais. Tem capim dourado lá, o melhor restaurante está lá”.
Bate-boca na audiência
Audiência sobre concessão do Jalapão tem discussão entre integrante do governo e moradores
A sessão de quinta-feira na AL foi marcada pelo clima tenso e tumultuado. Durante a sessão, o secretário da indústria, Tom Lyra, se exaltou e chegou a chamar moradores que protestavam contra a fala dele de ‘Talibãs’.
Lyra defendia as ações que o governo já realizou no Jalapão, principalmente enquanto ele esteve no comando da pasta do turismo, quando foi interrompido por gritos vindos do auditório. “Você me respeite, você me respeite, eu estou falando”, reagiu o secretário. “Eu não aceito você vir nesse debate… Afeganistão, isso aí. Isso é Talibã, rapaz. Você respeite, eu sou um secretário de Estado. Fui secretário do Turismo”, gritou.
Nesta sexta, Railane comentou a polêmica. “A gente fica chateado. É uma falta de respeito com a gente. A gente vai com força para lutar e sai indignado. Eles não dão ouvidos às comunidades”.
Postura semelhante foi adotado por Armando Castro, presidente da Associação Comercial, Industrial, Turismo, Serviço e Agronegócio da região do Jalapão. “A gente apoia a comunidade e contesta a linguagem e a postura do secretário ontem com a comunidade. O desrespeito total tratando como Talibã. Se antes da concessão está destratando assim, imagina depois”, disse Armando.
Ele diz que medidas devem ser tomadas e que todos esperam uma retratação pública. Tom Lyra também foi procurado para comentar o caso, mas ainda não se manifestou.
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Fonte: G1 Tocantins
